"E essa agora que o General da intervenção disse que o
Rio de Janeiro é um Laboratório para o Brasil?
E nós somos as cobaias??? Absurdo!"
-- Marielle Franco, em mensagem de 27/02/18
"E eu sei quem são meus amigos eternos e quem são
os eventuais. Os de gravatinha, que iam atrás de mim,
agora desapareceram."
-- Lula, em seu discurso de 07/04/18
2016: Brasil Hostil - Circuito Grampolândia: a República da Escuta: vigilância generalizada.
2017: Brasil Hostil - Etapa República de Weimar: efervescência política e avanço do arcabouço jurídico da repressão.
2018: Brasil Hostil - Edição Intervenção Foderal.
Fim de muitos ciclos aqui e no mundo. Talvez até de grandes períodos sob a égide do Iluminismo ou do Renascimento.
Mas chega de prosa. Bora dar um giro?
Em bom protuguês:
Elite local tentado dar o salto para se tornar elite global via privatização extrema e entreguismo; indícios de forte parceria entre o crime organizado do andar de cima e do de baixo (facções); e por aí vai. Um processo cheio de ruídos.
Estado de exceção permanente, Terror, necropolítica, pós-realidade. Muita gente vai rodar.
Fascismo de consumo em momento de recessão econômica.
Falta de narrativa que dê sentido à existência frente ao abismo.
Choque, luto, depressão, paralisia.
A canoa emborcou. Pode ser que amarguemos alguns anos até a próxima iteração.
Protestos e mobilizações passam por uma fase de esgotamento e insuficiência.
A janela histórica pode se abrir havendo comoção massiva.
O que a gente faz depois de sobreviver a uma avalanche?
Momento de estudo, maturação, fortalecimento, solidariedade, organização e luta.
A gente começa pequeno e cuida do básico essencial. Fazendo bem, a parada cresce.
No passado falamos muito de segurança. Agora nossa ênfase será na ideia de organização. E falaremos das organizações solidárias.
O fundamento da solidariedade é a tensão dinâmica entre egoísmo (cuidar de si, receber cuidados) e altruísmo (cuidar de outrem, aceitar os cuidados de outrem). A isto chamaremos de ajuda mútua.
A ajuda mútua pode ser a orientação básica para praticar e propagar formas de existência mais dignas.
Mas apenas essa orientação é insuficiente. Apenas a prática espontânea da ajuda também é insuficiente.
É necessária uma solidariedade além do meramente espontâneo e que gere algum acúmulo, um ganho organizativo que permita um salto, mesmo que lá na frente.
Precisamos de solidariedade organizada.
Poderíamos buscar teorias progressistas para repensar no que fazer.
Mas aqui será proposta uma rota alternativa: voltar para um período de resistência ao totalitarismo e descobrir no que ele pode nos ajudar.
Começar dentro do possível para chegar ao impossível. Mas antes de falar da nossa década de 20, falemos sobre as décadas de 30 e 40 do século passado.
"Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei,
porque, afinal, eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque,
afinal, eu não era judeu.
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse."
-- Martin Niemöller
Carmille operou em duas temporalidades:
Urgência, curto prazo: salvar quem estava na berlinda. E fez isso em larga escala apenas parando a maquinaria sem que os alemães soubessem. A ação passiva Zen, a não-ação, desobediência.
Organização, médio e longo prazo: tentar mobilizar o exército de reserva francês para ações futuras da Resistência.
Maquinário da Dominação: cartão perfurado, registro e rastreamento: mesquinharia contábil para controle, dominação e eliminação das pessoas. E dessa contagem que nasce a economia muquirana baseada na escassez. A questão de fundo é o medo egoísta da morte que exige extrair a vida de outrem a todo custo para tentar interromper o processo vital.
Na maquinaria solidária, as vidas estão entrelaçadas, de modo que uma pessoa tem sua liberdade enquanto outra também tiver. Estará bem conforme a outra também estiver.
O processo civilizador que vivemos tende a criar cada vez mais mediações/separações entre as pessoas.
Associações solidárias entre pessoas resgatam o contato humano direto e o compartilhamento da vida.
Organização: tensão entre o espontâneo e o planejado, entre o formal e o informal, entre a ordem e a desordem.
As máquinas solidárias são máquinas antifascistas!
Se o primeiro passo era estar bem para poder ajudar, o segundo passo é partir para a prototipagem e construção de relações entre as pessoas.
Autodefesa: neutralização da ameaça, não necessariamente a sua aniquilação.
Máquinas solidárias podem surgir espontaneamente: pessoas se ajudando mutuamente sem combinarem previamente.
Não trataremos do que é espontâneo. Isso vou assumir de imediato. Vou justamente propor falar do que não é espontâneo, do que precisamos planejar e construir para que talvez um dia possa ser espontâneo. Tudo o que será dito é básico, mas por isso mesmo precisa ser dito.
De maneira pragmática, incompleta mas que serve pra saber “o que tem pra hoje”:
A partir disso, alguém pode estimar sua relação solidária: horas semanais e e intensidade de esforço, por exemplo.
Onde e quanto você quer dispender seu tempo e energia disponíveis?
No que você pode ajudar? O que você pode oferecer?